MacBeth
27 a 29 março'26
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ACE Escola de Artes
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Auditório do Palácio do Bolhão
Passo o tempo todo a tentar situar a vida num lugar qualquer das coisas, provavelmente num lugar de sentido, passo o tempo todo à procura de um sentido, cada vez mais. Cada um tem os seus fantasmas. Cada vez mais me parece que entrámos numa lógica de estilhaço, entrámos numa espiral de caos de tal forma abrupta, apanhamos fragmentos voláteis tão esparsos, que mal nos permitem construir narrativas.
Mas não é a narrativa que está em crise, nem a nossa noção de narrativa, a narrativa sempre foi apenas um factor de mediação de sentido, provavelmente cultural, mas não tenho conhecimentos para separar a cultura do instinto, nem sei se acredito nessa separação. Somos o que somos. Nós estamos em crise, não as narrativas.
Não me interessa colocar uma separação política e identificar elementos específicos fundacionais daquilo que considero essa mesma crise, a nossa crise. Estamos numa crise enquanto espécie, vivemos num desencontro, desencontro no sentido de desacordo. O mundo tem caminhos diferentes, sentidos diferentes, opções diferentes, conhecimentos diferentes, possibilidades diferentes, mas parece condenado a não saber lidar com as possibilidades de caminho.
Não pretendo explicar, pretendo entender. O meu teatro está completamente ultrapassado. Nos últimos tempos tenho vivido também com esse mesmo desacordo dentro de mim. Não se trata de comparar contemporaneidades ou utilidades ou eficácias, ninguém é mais contemporâneo do que ninguém. Trata-se de encontrar formas que restabeleçam um ponto de contacto, que se comuniquem por si. O meu teatro está completamente ultrapassado porque só pode estar completamente ultrapassado, a máquina comunicante não é um tema em si nesta minha zona. Não me interessa discutir banalidades. O que é é o que é.
Se não temos o mesmo entendimento histórico sobre as coisas, é porque as coisas permanecem vivas, é porque ainda permanecemos vivos também. Acredito seriamente no teatro enquanto laboratório de contradições, não consigo ter clareza suficiente para ter propostas, há sempre muita coisa para pensar, é o rizoma que não perde o ritmo, é a linha que se torna rede que se torna rede que se torna rede que se torna rede, ad infinitum.
Macbeth não é um texto, é um universo.
Está de tal forma inscrito numa tradição teatral, que tudo à sua volta são fantasmas.
Não é de um autor, é de uma voz, uma voz de um tempo que parece não parar, uma voz de uma velocidade apressada, cruel, uma voz espiral, faz-me lembrar um pouco a velocidade de libertação do Virilio. Velocidade política, mas também de caos, é impossível voltar atrás. A opressão está de tal forma numa curva exponencial que nos parece impossível a sua queda, e não sou desencantado, atenção.
Macbeth é actual porque nós somos actuais. Nunca fomos tão actuais. Rio-me. Também nós estamos nos fantasmas da história, da guerra, da doença, da desigualdade, também andamos à mercê lá deles, das opções lá deles, das vontades lá deles. Macbeth é Ubu, Ubu é Macbeth. Chego a casa à noite e não encontro um sentido para os dias, nem para os anteriores, nem para os seguintes. A crise do sentido, a nossa crise de identidade é uma crise de sentido, não de sentido linear, isso já não existe, precisamos de deixar as linearidades, por muito que nos custe abandonar uma ideia de origem, é preciso encontrar o desconforto, aceitar o desconforto, até o nosso Deus cultural é linear.
O mero entretenimento não me diz nada, mas também não gosto de teatro lá de cima, não sou fã de cinismo. Sou de classe baixa. Se no teatro vivemos em conjunto, no teatro também pensamos em conjunto. Não há regras de estilo.
Este próprio texto é um estilhaço.
Uma dramaturgia do estilhaço.
Macbeth e a sua ambição apressada projectam-se para o absurdo desta nossa tão carinhosa actualidade, a política transformada em poder, o poder transformado em deus, que só pode ter comparação possível com o tempo, não, com O Tempo. Só O Tempo pode derrubar um deus. Lá eles que o digam. Eu chego a casa e na minha falta de sentido quando vejo as opções lá deles também penso no tempo, no meu e no deles. Também penso no nosso desencontro e no nosso desacordo. São tantas as bombas que caem. Fico com o meu silêncio. Só estaremos num mundo resolvido quando Shakespeare deixar de ser nosso contemporâneo, a frase não é assim, mas é uma ideia do Müller e eu concordo com ela.
Esta humanidade política que desfila, estas estruturas de poder, este poder que se agarra às unhas e que transforma e que purga, que é tão frágil de estrutura, que precisa do mal para se manter. Só o mal o pode manter. Mas onde está o mal? Em nós. Mas Shakespeare, ou Macbeth, não é sobre a tirania, nem sobre o mal, não é um símbolo, é uma alegoria, é de uma complexidade tal, tem tantas contradições, tantos paradoxos, tantas perspectivas, tantas possibilidades, uma frase tem tantos caminhos, é um poema.
Um poema visceral, claro, mas um poema. Nada é objectivo, nada pode ser objectivo, tudo é estratégia de quem lê. E não deixa de ser curioso que ele tenha sido descoberto pelos românticos alemães, porque ele antecipa nos seus textos algumas das problematizações dos filósofos alemães mais importantes do séc. XX.
Júlio César é um ensaio perfeito sobre a linguagem, pré-Wittgenstein, por exemplo. Mas a linguagem também está presente em Macbeth, o enunciado performativo, talvez não tão explícito como nos exemplos claros de Austin, mas não podemos desvalorizar o poder da profecia. Podemos questionar a profecia, claro, o que será a profecia? Quem serão as bruxas? Mundo real ou mundo irreal? Concreto ou mente? Que texto lemos quando lemos um texto? Que perspectiva temos sobre ele? Que texto escrevemos? Que texto vivemos? Que texto fazemos?
Este foi o meu segundo projecto na ACE, tal como na vida, todos os projectos podem sempre ser os últimos. Foi um privilégio fazer esta viagem com estas pessoas. Fomos companheiros de trabalho, de alegria, de dor, mas espero ter-lhes sido sempre verdadeiro, mesmo nas minhas fragilidades.
Fomos audazes em conjunto, a insegurança faz parte da audácia, o não saber. Valoriza-se pouco o não saber. Ainda sofremos um bocadinho. As distribuições não são justas, mas são difíceis e não há uma frase no mundo que não possa ser tornada numa grande cena. Já sabemos que é um texto complexo, que esta idade ainda é pouca para compreender esta violência e estas questões da existência, mas ainda bem, não é?
Um grande texto é uma experiência que se leva para a vida, um projecto destes também. Aprendi muito. Foi um mês e pêras.
Obrigado pelo tempo, camaradas.
Vemo-nos lá fora como colegas e amigos.
Pedro Fiuza
(texto escrito segundo o antigo acordo ortográfico)
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encenação Pedro Fiuza cenografia e adereços de cena Beatriz Melo, Claudia Amundarai, Gabriela Nápoles, Cloé Plazeck, Soraya Freire e Ana Cristina figurinos e adereços de ator Clara Marabuto, Hugo Marques, Benedita Marmelo, Inês Ferreira, Mariana Almeida e Karma Martins interpretação Beatriz Mendes, Carolina Barbosa, Catarina Silva, Diogo Martim Morgado, Erica Pereira, Filipa Santos, Inês Figueiredo, Inês Sousa, Lara Gaspar, Leonor Alves, Maria Lima, Maria Silva, Mariana Gaspar, Mariana Ginja, Mariana Neves, Raquel Moreira, Raquel da Volta, Raúl Silva, Rita Aleluia, Rita Oliveira, Sara Pacheco e Telma Leite luz Afonso Barrote, Inês Castro e Francisco Carvalho som Beatriz Fonte, Bernardo Belmiro, Gabriela Diallo, Inês Oliveira e Rita Miranda coordenação de cenografia e adereços Ana Gormicho coordenação de figurinos e adereços Paula Cabral coordenação de luz Mário Bessa coordenação de som João Martins apoio técnico Fábio Pinheiro, João Loureiro Martins, Liliana Macedo, Rúben Gonçalves, Tomé Lopes, Inês Domingues (estágio) e Maria Sousa (estágio) apoio a figurinos Joana Campos fotografia de cena Pedro Figueiredo registo vídeo Vasco Santos divulgação Ana Ferreira e Nuno Matos produção executiva Rosa Bessa direção de produção Glória Cheio direção técnica Pedro Vieira de Carvalho direção de cena Jessica Duncalf texto Heiner Müller tradução Fernando Villas-Boas
agradecimentos Carlos Silva, Celso Xavier, Fernando Villas-Boas, Ivo Alexandre, OVNITUR e Paulo Castro