NEROVNOST
11 a 12 maio'24
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ACE Escola de Artes
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Palácio do Bolhão
Hoje janta-se bem. Hoje, como ontem. Como sempre?
A verdade é que, melhor ou pior, a nós nunca nos faltou a comida. Nunca nos faltou nem
comida, nem teto, nem roupa lavada, nem água, nem eletricidade, nem… a nós nunca nos faltou
nada, pois não? Até sobrou nos dias bons. Nos dias de festa.
Nós somos uns privilegiados: paz, pão, habitação, saúde, educação… liberdade a sério ou mais
ou menos. Liberdade pelo menos de não ter que andar a lutar por ela na clandestinidade. De
podermos ser nós, com as nossas vozes e os nossos corpos a fazer a nossa festa. A fazer a nossa
luta. A exigir a nossa liberdade. A nossa e a dos outros. De todos? De todas?
(Porque é que falo de nós no masculino? Ainda não aprendi nada?)
Mas, afinal, podemos lutar pela liberdade de todas e todos? Liberdade, igualdade,
fraternidade… para quem? Quem somos nós? Nós no presente? Nós no futuro?
Desatem-se os nós: lugar aos novos, que nos hão-de inspirar, que nos hão-de redimir, que
hão-de fazer tudo o que adiámos para quando a situação estivesse consolidada.
"Consolida, filho, consolida."
Isto já consolidou?
Hoje janta-se bem. E hoje, estas jovens criaturas tomaram a iniciativa de se organizarem e
preencherem os espaços do Palácio que habitamos— sim, que nós habitamos um palácio!—
com as suas vozes, gestos e inquietações. E eles é que são o futuro, não é? Os vindouros.
Deixemo-nos guiar. Estamos em boa companhia.
Eles podem não ter a exata noção do que estão a fazer, mas não se preocupem: isto é só mais
um exercício de jovens estudantes de teatro. O que é que nos poderia preocupar?
Ao futuro!
João Martins